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Digital x Película

Maio 28, 2007

     O volume de dinheiro movimentado pela indústria cinematográfica está entre os maiores do mundo. O sistema de produção de filmes em escala industrial está plenamente acomodado, e os interesses em sua longevidade são inúmeros. Por muito tempo esses interesses estavam resguardados, não havia nada que ameaçasse o sistema. Até o advento do cinema digital.
     O sistema se baseia, ou baseava, no elevado custo de uma produção cinematográfica. Uma fatia considerável dos recursos disponíveis na confecção do filme era dirigida diretamente à película, e aos custos gerados por ela. Por esses e outros motivos, o cinema era visto como uma “arte das elites”, devido ao alto custo que a película demandava.
     Para se ter uma noção desse valor, podemos fazer uma conta simples. A medida cinematográfica padrão é a de 24 quadros por segundo, ou seja, a cada segundo, uma câmera de película tira 24 fotos. Podemos dizer que cada segundo de tela representa um filme fotográfico de 24 poses. Então, basta pensar como o custo sairia elevado, se, mesmo com um desconto considerável, teríamos que comprar, para um filme de 120 minutos, 7.200 filmes fotográficos. Isso sem levar em consideração os erros de gravação que podem ocorrer durante a filmagem, o que aumentaria a quantidade de película necessária. Contudo, o custo disso tudo é risório se comparado ao custo da revelação da película e do aluguel, ou mesmo do valor de compra das câmeras de película.
     O cinema digital é oriundo do vídeo, mas a tecnologia é significativamente diferente. A maior semelhança é que ainda a grande maioria das câmeras digitais funciona com uma fita magnética, como o video-tape tradicional. A tecnologia digital pressupõe a utilização dos dígitos, os bits, o código binário. Toda a imagem captada é transformada em 0 e 1. Durante a evolução das câmeras de vídeo digitais, para melhor desempenho em relação as cores, um chip foi implantado: o CCD (charge-coupled device) ou Dispositivo de Carga Acoplado. Essa sempre foi uma diferença significativa entre o vídeo e a película, a quantidade de cores no vídeo é muito menor do que na película. Para tentar suprir essa deficiência, foi criado esse chip, e para melhorar a qualidade passou-se a utilizar três ccd (um para o vermelho, outro para o azul e outro para o verde, divididos através de um prisma).
     Entre as diferenças técnicas, também contavam alguns outros fatores relativos à qualidade da imagem. Um é a própria definição: um vídeo digital tinha menos linhas de resolução do que um filme. Isso também pesava no momento da ampliação, pois, enquanto os projetores digitais tem uma distância e um tamanho de ampliação limitado, antes de começar a mostrar os pequenos pontos e linhas que formam as imagens, a película dificilmente perde resolução na ampliação e na projeção. Outro fator referente à qualidade da imagem, diz respeito ao número de quadros. Enquanto a película apresenta a medida padrão de 24 quadros por segundo, o vídeo era feito com 29,97 CAMPOS ENTRELAÇADOS por segundo. Ou seja, o vídeo sequer gerava quadros independentes, apenas campos que se entrelaçavam em suas linhas horizontais. Um último diferencial entre as duas ferramentas é a proporção da “janela”. O vídeo tradicional, e a televisão, tem um quadro com a proporção 4:3, é visualmente muito mais parecido com um quadrado do que a tela de um cinema, que, com a proporção do quadro de 16:9,  é muito mais larga, o que poderia ser mais confortável à visão humana que é “horizontalizada”.
     No entanto, essas diferenças foram sendo minimizadas ao longo dos anos. Hoje existem câmeras digitais com excelentes lentes, que gravam em alta definição (uma quantidade muito maior de linhas que ficaram invisíveis a olho nu), e projetores digitais melhores e capazes de suprir as antigas deficiências. Além disso, já a maioria das câmeras digitais profissionais oferecem a possibilidade de gravar os “filmes” já no formato 16:9 com 24 quadros desentrelaçados por segundo. Ou seja, se existe alguma diferença que ainda não tenha sido suprida, muito provavelmente em breve será.
     Essas eram as vantagens que a película apresentava sobre o vídeo digital. O vídeo evoluiu, e conseguiu, nesses quesitos, se equiparar à película. Contudo, as vantagens que o vídeo apresentava ainda prevalecem. O custo incrivelmente reduzido do digital, se levarmos em conta todos os processos que as duas ferramentas demandam ainda é o maior diferencial. Mas podemos lembrar também da praticidade conquistada em outros processos. A edição, no cinema tradicional, era feita na moviola, um equipamento que – literalmente – era responsável pelos cortes na montagem. Já faz um certo tempo que as montagens são preferencialmente feitas em meios digitais (computadores), mesmo quando filmados em película. O processo de digitalização do filme torna-se inexistente se a captação já for digital. Sobre a moviola, uma última curiosidade: um cineasta famoso e conceituado que ainda edita seus filmes neste equipamento é Steven Spielberg, que, ironicamente, é muito amigo de George Lucas, um dos maiores advogados do cinema digital.
     Quem também sai ganhando muito com a redução de gastos do cinema digital é o cinema independente. O cinema passa a ser muito mais acessível, e a produção independente é ampliada. Isso é muito interessante, pois quanto mais filmes tivermos, por piores que sejam, também crescem as chances de novos talentos aparecerem, e com eles, mais filmes de qualidade.
     Contudo, o cinema também encontra-se num impasse. Como já foi dito, o sistema atual está implantado há mais de 90 anos, e muitos interesses estão envolvidos que querem a sua longevidade. As salas de cinema por exemplo, teriam que trocar todo seu equipamento para viabilizar a exibição em digital. Muita gente, na transição perderia muito dinheiro. É um processo delicado, mas que dificilmente será parado. O cinema digital está em franca ascensão e fatalmente substituirá o modelo atual. É apenas uma questão de tempo.

Post feito por Micael Bretas

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